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Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

Este homem é um senhor!!

Em homenagem aos lisboetas (ironia) e seus "wanna be"  (sim, estou a pensar, em particular, num determinado trio de meninas do "norte" e duma certa viagem de taxi após noitada no Lux), não consigo resistir a transcrever este artigo do Prof. Vital Moreira, de quem tive o privilégio de ser aluno e uma das raras excepções ao cinzentismo da Faculdade de Direito de Coimbra (outra excepção, como não poderia deixar de ser, até porque nunca se sabe quem lê estes postais, é o Prof. Pinto Monteiro.... o meu orientador da tese de mestrado...).

Sim, tenho muito orgulho na minha pronúncia!!

Crónica do falar Lisboetês por Vital Moreira

De súbito, o homem do quiosque de Lisboa a quem eu pedira os meus jornais habituais interpelou-me:

- O senhor é do Norte, não é?

Respondi-lhe que não, que nasci na Bairrada e que resido há quase 40anos em Coimbra.

Fitou-me perplexo. Logo compreendi que do ponto de vista deLisboa tudo o que fique para cima de Caneças pertence ao Norte, uma vaga região que desce desde a Galiza até às portas da capital.

Foi a minha vez de indagar porque é que me considerava oriundo do Norte. Respondeu de prontoque era pela forma como eu falava, querendo com isso significar obviamente que eu não falava a língua tal como se fala na capital, que para ele, presumivelmente, não poderia deixar de ser a forma autorizada de falar português. Foi a primeira vez que tal me aconteceu. Julgava eu que falava um português padrão, normalmente identificado com a forma como se fala "grossomodo" entre Coimbra e Lisboa e cuja versão erudita foi sendo irradiada desde o século XVI pela Universidade de Coimbra, durante muitos séculos a única universidade portuguesa. Afinal via-me agora reduzido à patológica condiçãode falante de um dialecto do Norte, um desvio algo assim como a fala madeirense ou a açoriana.

Na verdade - logo me recordei -, não é preciso ser especialista para verificar as evidentes particularidades do falar alfacinha dominante. Por exemplo, "piscina" diz-se "pichina", "disciplina" diz-se "dichiplina". E a mesma anomalia de pronúncia se verifica geralmente em todos os grupos "sce" ou "sci": "crecher" em vez de "crescer", "seichentos" em vez de"seiscentos", e assim por diante.O mesmo sucede quando uma palavra terminada em "s" é seguida de outra começada por "si" ou "se". Por exemplo, a expressão "os sintomas" sai algo parecido com "uchintomas", "dois sistemas" como "doichistemas". Ainda na mesma linha a própria pronúncia "de Lisboa" soa tipicamente a "L'jboa".

Outra divergência notória tem a ver com a pronúncia dos conjuntos"-elho" ou" -enho", que soam cada vez mais como "-ânho" ou "-âlho", como ocorre por exemplo em "coelho", "joelho", "velho", frequentemente ditos como"coâlho", "joâlho" e "vâlho".Uma outra tendência cada vez mais vulgar é a de comer os sons, sobretudoa sílaba final, que fica reduzida a uma consoante aspirada. Por exemplo:"pov'" ou "continent'", em vez de "povo" e de "continente". Mas essa fonofagia não se limita às sílabas finais. Se se atentar na pronúncia dapalavra "Portugal", ela soa muitas vezes como algo parecido com "P'rt'gâl".O que é mais grave é que esta forma de falar lisboeta não se limita às classes populares, antes é compartilhada crescentemente por gente letrada e pela generalidade do mundo da comunicação audiovisual, estando por isso a expandir-se, sob a poderosa influência da rádio e da televisão.Penso que não se trata de um desenvolvimento linguístico digno de aplauso. Este falar português, cada vez mais cheio de "chês" e de "jês", é francamente desagradável ao ouvido, afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos a eles), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem abertadas vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras.

A propósito do português do Brasil, vou contar uma pequena história quese passou comigo. Na minha primeira visita a esse país, fui uma vez convidado para um programa de televisão em Florianópolis (Santa Catarina).Logo me avisaram que precisava de falar devagar e tentar não comer os sons, sob pena de não ser compreendido pelo público brasileiro, que tem enormes dificuldades em compreender a língua comum, tal como falada correntemente emPortugal. Devo ter-me saído airosamente do desafio, porque, no final, já em"off", o entrevistador comentou:

"O senhor fala muito bem português."(Queria ele dizer que eu tinha falado um português inteligível para o ouvidobrasileiro.)

Não me ocorreu melhor do que retorquir:

- Sabe, fomos nós que o inventámos...

Por vezes conto esta estória aos meus alunos de mestrado brasileiros,quando se me queixam de que nos primeiros tempos da sua estada em Portugal têm grandes dificuldades em perceber os portugueses, justamente pelo modo como o português é falado entre nós, especialmente no "dialecto" lisboetês corrente nas estações de televisão.Quando deixei o meu solícito dono do quiosque lisboeta do início desta crónica, pensei dizer-lhe em jeito de despedida, parafraseando aquele episódio brasileiro:

- Sabe, a língua portuguesa caminhou de norte para sul...

Logo desisti, porém. Achei que ele tomaria a observação como uma piadade mau gosto. Mas confesso que não me agrada nada a ideia de que, por forçada força homogeneizadora da televisão, cada vez mais portugueses sejam"colonizados" pela maneira de falar lisboeta. E mais preocupado ainda fico quando penso que nessa altura provavelmente teremos de falar em inglês para nos entendermos com os espanhóis e - ai de nós! - talvez com os próprios brasileiros...

 

 PS - Este feliz postal fica-se a deve a http:\\nosca-tula.blogspot.com

publicado por O Carteiro às 19:55
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