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Reza a velha rivalidade de concelhos vizinhos que os habitantes de Oliveira de Azeméis são os “carneiros” e os de São João da Madeira são os “calhaus”. Em termos de metáforas, acho que a minha ligação com o referido animal fica por aí. Aliás, sinto alguma pena por esses animais que andam por aí, sem saber bem para onde ir, a não ser que querem desesperadamente fazer parte da manada. Abençoados…
“Throughout human history, as our species has faced the frightening, terrorizing fact that we do not know who we are, or where we are going in this ocean of chaos, it has been the authorities — the political, the religious, the educational authorities — who attempted to comfort us by giving us order, rules, regulations, informing — forming in our minds — their view of reality. To think for yourself you must question authority and learn how to put yourself in a state of vulnerable open-mindedness, chaotic, confused vulnerability to inform yourself.” Timothy Leary.
Nada melhor do que começar o dia com uma frase "ideologicamente neutra" num país à beira do colapso financeiro mas onde a propriedade é um direito intocável (o único?) "O direito à propriedade privada é um direito basilar de qualquer sociedade moderna (nota: "quod erat demonstrandum"). Por isto, é incompreensivel a acção do Estado argentino ao nacionalizar o negócio da Repsol. Os países vivem em crise devido às medidas dos seus governantes (nota: será que vive no mesmo planeta do que os restantes portugueses?). Com este tipo de decisões, Kirchner está a condenar a Argentina ao ostracismo económico (nota: se for semelhante ao da Islândia, acho que a Argentina até agradece)."
Joseph Stiglitz (Banco Mundial) "Apenas uma abordagem blitzkrieg durante a janela de oportunidade proporcionada pelo nevoeiro da transição pode operar as mudanças antes que a população tenha hipótese de se organizar para proteger os seus interesses anteriormente investidos"
Vinho sozinho,
Como ausência de dor,
Uma cor suspensa
No amargo da boca
Quebrando o círculo.
O ser teórico
Afronta entre as cortinas
A subida do acto.
Aleluia! O Grande Xamã também faz parte daquela Igreja, com bíblias de neon e espelhos negros, com palmas, muitas palmas, saltos, muitos saltos, e coros, muitos coros! Sim, estou a tentar exprimir a minha felicidade por ter assistido (e participado!) ao fantástico concerto do Arcade Fire! (entrada directa para o n.º 2 do meu top de concertos, só mesmo atrás do concerto dos Tool no Restelo já aqui várias vezes referido).
Sim, leram bem, felicidade, cujos efeitos se sentem mesmo agora, a medida que escrevo e recordo a intensidade de cada segundo desse concerto. Isso também ficou bem patente hoje quando corria na passadeira, e de repente, passou um excerto do concerto – “No cars go”. O primeiro impulso foi começar a saltar, mas rapidamente tive de corrigir esse impulso para não descarrilar. Mas o sorriso e a felicidade na minha alma, esses ficaram!
Tenho que começar por agradecer à “minha neguinha” e ao seu namorado, o Gil (mas não o da Expo!!), por me terem arrancado daquilo que prometia ser um dia cinzento (não, eles não sabem fazer – acho eu – a “dança da chuva invertida”, mas têm excelentes contactos com “alguém” lá em cima!).
Estava com muitas expectativas em relação ao concerto, e consciente de que isso não costuma ser lá grande princípio... excepto quando a banda consegue ir para além das expectativas e é capaz de descarregar TWh (eu sou advogado, mas sei a diferença entre energia produzida e capacidade instalada!) de energia divina. Com um alinhamento irrepreensível (do meu ponto de vista, claro) e uma intensidade de actuação em potência máxima, difícil foi mesmo conformar-me com o final do concerto. Teve como “flavour” suplementar (dulce de leche, é bom de ver) de me transportar até à Argentina, onde os Arcade Fire foram a minha banda sonora. Arcade Fire e Argentina, duas causas maiores da minha felicidade! Engraçadas coincidências que a vida nos reserva...
Longo suspiro. Regressem pois têm um lugar reservado no altar da minha Igreja!
O tempo passa.. Inúmeros clichés e lugares comuns poderiam servir de introdução a este postal, até mesmo o facto de o tempo não existir. Mas o título é apenas um pretexto para escrever algo que ainda não está definido. Na verdade, tal parte da imposição de escrever e não deixar passar mais tempo sem o fazer. Não que sinta uma urgência em escrever, mas sinto vontade de escrever.
Por outro prisma, escrever poderá ser visto como uma perda de tempo. Felizmente o tempo é relativo e a apreciação do que escrevo também. Tenho andado às voltas com uma ideia que por vezes assume contornos de piada mas que tem um fundo de preocupação. A cisão entre o sujeito e o objecto. A cisão não é só importante em termos epistemológicos mas acaba por ter um retorno existencialista que me deixa apreensivo com as minhas próprias limitações. E nessa confusa dialéctica, dou por mim a olhar coisas que escrevi e a ficar siderado com a capacidade de me surpreender, mesmo numa coisa sentida tão intensa e intimamente como escrever. E não posso deixar de pensar que, de facto, embora a linguagem humana (nas suas diferentes formas) seja uma das características mais distintivas do ser humano, não deixa de ser uma codificação artificial para exprimir aquilo que de mais humano temos: sentir. No entanto, a distorção desta codificação/simplificação pode ser duplamente artificial, pois não só se reflecte na forma como conseguimos exprimir o que sentimos, mas também, provavelmente, condiciona a forma como sentimos. Na verdade, ao termos que aprender a exprimir os nossos sentimentos, não será que estamos também a ser condicionados pelos códigos que temos de utilizar para exprimir esses sentimentos?
Bem, por agora, é o que me apraz dizer sobre o fluir do tempo.
Dentro de um pulsar de luz,
Na indiferenciação das cores,
Quentes e suaves,
Existe um perfume adocicado pelo mel,
Sem substância material.
O fascínio da provocação
Percorre a curta distância
Entre uma palavra e o silêncio
Entre um movimento e a hesitação.
E tudo isto revolve angústia,
De direcções diluídas no tempo,
Como um rio aprisionado
Pela sua própria vontade
De percorrer montanhas e vales
E de nunca chegar ao mar.
No balanço de variáveis infinitas,
Na crueldade de existir,
Emerge um momento
Em que o caminho é incerto
Na passagem do vento.
Primeiro artigo
Começar por onde? O melhor é não começar.
Nunca escrevi um diário, nem sequer me interesso por aí além pela internet ou coisas afins. Mas há uma coisa que sempre gostei de fazer: escrever cartas. Pensando bem, não é só escrever cartas, é também o ritual de enviar e receber cartas.
Um ritual...
Não consigo deixar de recordar uma das coisas mais interessantes que aconteceu quando andava no secundário, o ritual das cartas! Este é um daqueles momentos em que um sorriso percorre a distância do passado.
Não sei quem começou ou como é que começou, mas isso, aliás como normalmente acontece, não é o mais importante. Durante o secundário, eu e os meus amigos tinhamos um ritual de escrever cartas entre nós. Sim, um ritual é a palavra adequada, à qual junto sagrado, sem explicar porque. Era sem dúvida curioso, passavamos o tempo todos juntos na escola, falavamos imenso, partilhavamos imensas coisas, mas depois havia uma carta!
Todos trocavamos cartas entre nós, a maior parte das vezes, entregues em mão, com uma cumplicidade inexplicavél.
Havia uma regra que mais do que imposta era implicitamente aceite por todos, o conteúdo era inviolável. Pelo que sei, essa regra foi sempre respeitada, ao limite.
Nessas cartas, existia um novo universo e imaginário. Uma comunhão profunda daquilo que eramos, embora essas cartas não se limitassem a ser um confessionário ou um cemitério de segredos pós-adolescentes. Eram laços de palavras, pedaços de vida, sonhos e pesadelos confiados nas mãos de alguém que nos devolvia nas suas palavras um mistério profundo. Era algo que começava e terminva nas palavras confiadas nessas singelas cartas.
Tenho cerca de 100 cartas guardadas religiosamente desse tempo.
Actualmente o meu contacto com esses meus amigos do secundário é praticamente reduzido a alguns telefonemas anuais, tirando pontais excepções de fugazes reencontros. Algumas dessas pessoas não vejo nem falo com elas há anos.
Mas o sentimento sagrado permanece inviolável.
Serve esta introdução de interlúdio a este blog. Será a metáfora do carteiro.
Bem-vindos!
A reacção obsoleta de graus de temperatura, filtrados por de expiação mortal, na hora do crepúsculo lunar. E nesse rio de silício, nessa montanha de metais decompostos e nesse triste olhar, há uma inércia malévola. Domina um abandono irresistível às provocações do perigo do céu desabar sobre a linha do horizonte. E, no entanto, as cores deste cenário são um bálsamo indolor nas pontas dos dedos cansados de esperar. Um dia tudo mudará no intervalo de duas palavras. Sem esforço. Porque o som e o calor não se propagam de forma homogénea quando existe dor.